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    POVOS TRADICIONAIS


    Educação indígena: avanços e dificuldades para manter a cultura

    A educação é um direito garantido a todos pela Constituição Federal de 1988. No entanto, a população indígena luta, entre trancos e barrancos, para alcançar o ensino com qualidade

    Criança a caminho de escola indígena na Zona Rural de Manaus | Foto: Divulgação/Semed

    Manaus - O Brasil possui, hoje, mais de três mil escolas indígenas situadas apenas em territórios tradicionais, sem contar as que funcionam em perímetro urbano. Com o objetivo de formar cidadãos na base curricular nacional e, ao mesmo tempo, preservar a cultura dos povos nativos, essas unidades de ensino enfrentam sol e chuva (por vezes, literalmente) para conseguir trabalhar com educação.

    De acordo com a plataforma 'Catálogo de Escolas', do Ministério da Educação, foram reconhecidas 3,3 mil escolas indígenas em todo o Brasil, no ano passado. O número é maior, visto que ainda há unidades não reconhecidas pela pasta, ou mesmo escolas em áreas fora dos territórios indígenas.

    Um terço do total dessas unidades de ensino (1.068) estão localizadas no Amazonas, o Estado mais indígena do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As escolas indígenas se espalham de uma ponta a outra dos rios Amazonas, Madeira, Solimões e outros.

    "As escolas indígenas do Amazonas são um exemplo na questão da pedagogia, mas possuem grandes problemas na falta de infraestrutura. Para se ter ideia, dessas mil escolas, mais da metade não tem sequer prédio. Funcionam em barrancos, em casas de farinha, na residência do próprio professor e por aí vai", explica Gersem Baniwa, professor adjunto no Departamento de Educação Escolar Indígena da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

    Professor Gersem Baniwa
    Professor Gersem Baniwa | Foto: Reprodução/Youtube

    O Ministério da Educação, por sua vez, reconhece que 913 (30% do total) das escolas indígenas do País funcionam de forma improvisada. Dessas, quase metade (347) estão no Amazonas. A região com as estruturas educacionais mais precárias é o território etnoeducacional do Rio Negro, segundo o próprio MEC. 

    Feridas no ensino

    A Constituição Federal de 1988 foi a primeira legislação a garantir aos indígenas o direito a serem quem são, e, à sua maneira, acessarem todos os serviços necessários, como saúde, moradia e educação. A realidade, no entanto, diverge do texto.

    Gersem é professor há 11 anos e atualmente coordena o curso de licenciatura de professores indígenas, oferecido pela Ufam. Com uma vasta experiência no tema, ele aponta os principais problemas enfrentados pela forma de ensino.

    Escola indígena na Zona Rural de Manaus
    Escola indígena na Zona Rural de Manaus | Foto: Divulgação/Semed

    "Além da infraestrutura das escolas, outro ponto a ser destacado é a contratação de professores indígenas. Há precariedade porque os docentes são chamados por contratos temporários e isso impacta no estudo dos alunos", afirma o professor.

    Segundo ele, esses contrários são renovados anualmente, no entanto, a burocracia do processo faz com que as aulas dos indígenas comecem por volta do mês de março "na melhor das hipóteses". 

    "Por conta desses problemas, o ensino é impactado. Basta observar que as escolas indígenas geralmente estão entre as últimas no ranking de avaliação escolar do Ministério da Educação", comenta Gersem.

    Como é uma escola indígena

    Afinal, o que muda em uma escola que  tem como princípio a preservação da cultura indígena? Quem ajuda a entender as diferenças é Geovana de Oliveira, assessora pedagógica na Secretaria Municipal de Educação de Manaus. Ela atua diretamente na orientação de professores indígenas.

    Assessora ressalta a importância das escolas indígenas para o mantimento da cultura
    Assessora ressalta a importância das escolas indígenas para o mantimento da cultura | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "A principal diferença é o trabalhar a língua materna na sala de aula e também o ensino dos costumes de cada povo. Se o professor está ensinando matemática, ele trabalha tanto na língua indígena quanto no português. Além disso, durante o ano, as crianças participam de projetos que focam em ensinar sobre as comidas típicas e outros aspectos culturais", afirma a profissional.

    Ela explica que detalhes na sala de aula se tornam possibilidades para explorar os costumes indígenas. Se o professor falar sobre biologia, pode frisar a importância do peixe para os povos indígenas, por exemplo. 

    "Em todo esse processo, um ponto importante é a valorização desse professor. Ele não mede esforços para fazer um bom trabalho, é uma resistência deles para não perder a cultura", ressalta a assessora.

    Entre avanços e barrancos

    A luta dos movimentos indígenas para escolas que respeitem as culturas não é de agora. Mas, gradualmente, os avanços têm aparecido. Quem fala sobre isso é Glademir Sales dos Santos, gerente de Educação Escolar Indígena (Geei), da Semed-Manaus.

    Gestor dá enfoque para o processo de ensino-aprendizagem que é realizado nas escolas
    Gestor dá enfoque para o processo de ensino-aprendizagem que é realizado nas escolas | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "A demanda vem das associações indígenas, e nós, enquanto Estado, temos a missão de acolher sensivelmente esses pedidos. Temos hoje quatro escolas indígenas e 17 centros de estudo da língua espalhados por Manaus, tanto na zona urbana quanto rural. Além disso, somos muito esperançosos e temos planos para estender esse trabalho. Recentemente tivemos um processo seletivo para contratação de novos professores, os quais em breve serão chamados" comenta o profissional.

    Segundo ele, a educação escolar indígena no município já alcançou 820 estudantes indígenas em períodos comuns, mas agora, durante a pandemia, esse número caiu para 390. 

    "Apesar disso, seguimos com o trabalho juntamente ao nosso time de profissionais linguistas, antropólogos, professores de arte e de educação física, dentre outros", destaca o gerente.

    Preservação da cultura

    Ao final de sua entrevista, o professor Gersem Baniwa citou um ponto considerado crucial por ele. A diferença entre a 'função da escola' em uma política não indígena, e o modo como ela é trabalhada quando respeita a cultura dos povos tradicionais.

    Embarcação escolar que atua na região rural de Manaus
    Embarcação escolar que atua na região rural de Manaus | Foto: Divulgação/Semed

    'Se hoje temos línguas e costumes perdidos no Brasil, é por causa do ensino nas escolas. De 1300 línguas, hoje temos pouco mais de 270. Boa parte desse desaparecimento cultural foi culpa da escola", ressalta o indígena.

    Ele diz que o sonho de muitos líderes é que exista um dia, um mundo onde possam viver multiculturalmente e sem preconceitos.

    "Nós não queremos substituir os costumes não indígenas ou o português. Queremos andar lado a lado com todos, esse é o nosso sonho", afirma o professor. 

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